sexta-feira, novembro 09, 2007


VITUPÉRIOS DE UM VÍLICO SEM CLASSE


Fui um dos que assistiu pela televisão ao debate do Orçamento de Estado para 2008. Fiquei enojado com a postura desatinada da dupla José Sousa/Fernando Santos. Estou farto dela e da sobranceria com que se dirige aos portugueses. Falaram de cátedra, atiraram números falaciosos para público se entreter, mentiram, disseram o que lhes convinha, omitiram, sem pudor, os números que depreciavam a sua política de polichinelo. Esta dupla é autista, está desacreditada e há muito que atingiu o seu estado de validade.

O Orçamento do Estado para 2008, além de um embuste pegado, é um orçamento reles. Não contribui para o desenvolvimento económico-social do País, aumenta o número de desempregados, agrava os impostos, engorda a riqueza dos que já são ricos, empobrece uma vez mais a classe média, insulta, com migalhas de cobardia, os que já são pobres, menospreza os funcionários públicos, avilta os aposentados do Estado.

Enquanto se ouve e vê pela televisão esta súcia de poltrões a defender o Orçamento de Estado do próximo ano, os portugueses indignam-se com o que vão vendo e sentindo à sua volta; irritam-se com as notícias vindas a público de que vão ser gastos em 2008, e à custa de todos nós, 61,6 milhões de euros em viagens e hotéis, mais 18,8% (!!!) do que terá sido gasto em 2007, e para um ano em que Portugal já não preside à União Europeia; enfurecem-se com os gastos sumptuários dos membros do Governo (para quê tanta viagem e tantos carros novos todos os anos, senhores?); revoltam-se com os sucessivos aumentos dos combustíveis e, por via disso, da ceva gulosa dos vílicos do Estado; preocupam-se com os aumentos dos produtos alimentares, da electricidade, do gás, da água, dos medicamentos, dos serviços de saúde, dos simples produtos de higiene básica; inquietam-se com o futuro.

Os Sindicatos da função pública, cansados deste Governo e das políticas de hostilização que sistematicamente visam os funcionários públicos, decretaram greve geral para o dia 30 de Novembro. Fizeram bem, cumpriram o seu dever. Espera-se agora que os funcionários façam o seu, anuindo em massa ao apelo dos Sindicatos. A agitação social por meio de uma greve, sendo um direito de quem trabalha, é igualmente uma forma democrática de se discordar de um Governo, de o deitar abaixo se for necessário. É preciso destituir este Governo. Há muito que deixou de ser capaz de mobilizar a sociedade portuguesa. Um Governo que não mobilize a sociedade não presta. O Governo do licenciado José Sócrates perdeu o prazo de validade. Que o “pântano” de Guterres o inspire, por uma vez, na única decisão que deve tomar: DEMITIR-SE. Para isso têm também a palavra, no dia 30 de Novembro, os funcionários públicos, os juízes, os magistrados, os médicos, os professores, os aposentados, os deficientes; têm a palavra os descontentes da sociedade portuguesa. Assim se assumam e não tenham medo.

terça-feira, outubro 30, 2007

CASTAS LUSITANAS


O nosso País é um País de castas. De muitas e variadas, para todos os gostos, tradicionais e modernas, de natureza política, de feição religiosa ou de cariz económico. Sendo uma casta, de acordo com a Porto Editora, “uma classe de cidadãos que goza de privilégios especiais”, ou “todo o grupo social ciosamente fechado sobre si”, não é difícil vê-las por esse país fora, aos montes. Basta estar atento.

Se, ao longo da história, se distinguiram e distinguem ainda os membros da Opus Dei e das Lojas Maçónicas, proliferam pela nossa sociedade outras castas que, ínsitas ou já desligadas daquelas, têm sido objecto, pelos piores motivos, de uma especial atenção por parte da Comunicação Social e da opinião pública portuguesa. Não querendo falar de todas as castas, há hoje na sociedade portuguesa a chamada casta dos gestores dos Grandes Grupos Económicos, de capitais públicos e privados. A Caixa Geral de Depósitos, o Banco de Portugal, a Portugal Telecom, a Galp, o Milénio BCP, a EDP, a RTP, a REFER, a CP… são, dentre outros, exemplos recentes de como funciona a malfadada casta de alguns dos mais famosos Gestores de Portugal. Gravitam por aí, giram de um grupo económico para outro, contratam-se entre si, reformam-se e voltam a ser contratados, perpetuam-se no poder anos a fio, estabelecem as suas remunerações, fixam as suas reformas, negoceiam as saídas de um grupo para logo entrarem noutro, permitem-se conceder a si próprios e aos seus familiares empréstimos milionários sem juros, a juros baixos ou, cúmulo dos cúmulos, com perdão do seu próprio pagamento; atentos ao mercado e detentores de informação privilegiada permitem-se criar condições para a baixa artificial das acções dos grupos a que pertencem para logo a seguir as revenderem com mais valias milionárias.

As reformas milionárias dos gestores da Caixa Geral de Depósitos e do Banco de Portugal; os empréstimos que se permitem obter junto desta última entidade reguladora; e os episódios rocambolescos dos Administradores do Grupo Millenium BCP são três exemplos claros acerca do modo como esta classe de privilegiados funciona, do carácter que revelam e do desplante com que placidamente continuam a aparecer junto da opinião pública portuguesa. Não têm vergonha, gozam despudoradamente com a fragilidade de quem tudo suporta.

Enquanto isto acontece o País deprime-se, os portugueses empobrecem, a classe média definha. O que se passa no nosso País é um escândalo, caiu-se, há muito, ao nível da indecência. Até quando?

domingo, outubro 21, 2007


UM PAÍS DE POLÍTICA MENTIREIRA


O actual Ministro das Finanças parece ser um daqueles homens relativamente ao qual é difícil recair qualquer onda de azedume. O ar cândido, o passado impoluto e a forma elegante como dialogava com as pessoas faziam dele um homem talhado para um papel de grande relevo na sociedade portuguesa. Tem-no sido ao longo da sua vida como Professor Universitário na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, como Presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e, de há dois anos a esta parte, como Ministro das Finanças. Por bons e maus motivos…

Conheço o Professor Fernando Teixeira dos Santos no contexto dos Cursos de Defesa Nacional, recordando-me do auditor assíduo, do aluno atento, do discípulo deferente, do companheiro solidário. Professor universitário de profissão, Teixeira dos Santos era um homem simples de quem se gostava à primeira. Ainda hoje mantenho a excelente impressão que a colegas e professores causava.

Todavia, se Teixeira dos Santos conseguia facilmente criar, junto daqueles com quem lidava, uma auréola de professor competente, de auditor interessado, de gestor com amplo sentido de visão no âmbito da CMVM, tenho hoje muitas dúvidas de que o seu papel como Ministro das Finanças do nosso País esteja a ser um papel positivo. O tempo o dirá, mas não vai, seguramente, ficar com bom-nome na história dos ministros das finanças portugueses. E é pena porque este homem afável bem o merecia.

Com a política monetarista que imprimiu ao seu Ministério e ao País, vexou, de forma indecorosa, os aposentados da Caixa Geral de Aposentações, maltratou os professores, disse mal dos médicos e profissionais de saúde, ostracizou magistrados e juízes, não soube, enfim, respeitar os próprios funcionários públicos que o serviam e de quem se serve.

Obcecado pelo défice das finanças públicas Teixeira dos Santos não tem sabido ser um Ministro das Finanças à altura das dificuldades do País. Qualquer contabilista de formação mediana sabia fazer o que tem vindo a fazer. Aumentar os impostos e diminuir traiçoeiramente os rendimentos de funcionários públicos e aposentados do seu Ministério é uma decisão de merceeiro mal amanhado, não é decisão própria de um Ministro das Finanças com visão estratégica. Uma empresa em dificuldades que tratasse os seus clientes como Teixeira dos Santos e o Chefe de Governo têm tratado os portugueses já teria fatalmente falido. Se um País, pela natureza das coisas, não pode falir, há muito que uma boa parte dos portugueses está falida. Sugados pelo fisco até ao tutano, os portugueses da chamada classe média, se ainda não faliram todos, estão irremediavelmente mais pobres.

O que resultou da política adoptada pela dupla José Sócrates /Teixeira dos Santos depois de dois anos de governo? Crescimento pífio da economia portuguesa; diminuição galopante do poder de compra da maioria dos cidadãos; meio milhão de portugueses desempregados; dois milhões de portugueses pobres ou no limiar da pobreza; contestação social generalizada; riqueza ilicitamente acumulada em "meia dúzia" de modernos "senhores feudais"; pequena e alta corrupção; indigência; criminalidade e insegurança; pobreza envergonhada; política desprestigiada; políticos mentireiros…

Como ter mão nisto? Não há quem se revolte?

terça-feira, setembro 25, 2007


QUE INTERESSES MOVEM A FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE FUTEBOL?

Tomei agora mesmo conhecimento de que a Federação Portuguesa de Futebol decidiu não sancionar Luís Filipe Scolari. Soube ainda que, além de o não ter afastado pela falta grave que cometeu no fim do jogo Portugal-Sérvia, decidiu reiterar-lhe confiança no cargo de Seleccionador Nacional e, pasme-se, apoiá-lo jurídica e politicamente no recurso que aquele Senhor interpôs junto da UEFA a propósito da sua suspensão por quatro jogos. Fiquei, como cidadão, indignado com esta decisão de Gilberto Madaíl e seus pares na Direcção da Federação. É o cúmulo da iniquidade e é caso para se pensar que, nos meandros daquela entidade desportiva, o crime às vezes compensa, como é o caso presente, e outras penaliza, como foram os casos de Sá Pinto, João Pinto, Abel Xavier e de muitos outros atletas de que não me ocorrem agora os nomes.

Falando os factos por si e não havendo, por isso, outros comentários a fazer, atrevo-me, no entanto, a formular as seguintes perguntas ao Sr. Dr. Gilberto Madaíl: será possível dar conhecimento público dos relatórios que foram apresentados pela Federação junto da UEFA e dos relatórios desta entidade que estiveram na base da sanção de quatro jogos que impenderam sobre Luís Filipe Scolari? Será possível conhecer o processo disciplinar que o relator da Federação elaborou a propósito do acto irreflectido do Seleccionador Nacional? Por que razão houve, desde o início, uma intenção de se branquear tão grave comportamento? Que interesses económicos e desportivos moveram e movem a Federação para que um acto desta natureza pudesse passar sem sanção ao nível do País? Que autoridade moral tem esta Federação para, no futuro, punir casos desta ou de menor gravidade que venham a ocorrer com outros atletas e técnicos de Clubes ou ao serviço desta mesma Federação?

Faltando apenas quatro jogos para que o apuramento se realize acha o Senhor Presidente da Federação que Filipe Scolari tem autoridade e condições psicológicas para bem dirigir, fora do banco, os jogos que é obrigatório ganhar? Nada assim tanto em dinheiro esta Federação para se permitir manter os custos de um seleccionador que, tendo sido punido pelas mais altas instâncias europeias do futebol, está disciplinarmente impedido de exercer em pleno as suas obrigações contratuais? Se o apuramento falhar, de quem é a responsabilidade? Do Seleccionador que só trabalha a meio termo, ou do Presidente da Federação que foi, desde o início, cúmplice no branqueamento dos disparates daquele Senhor?

segunda-feira, setembro 24, 2007

DEVE SCOLARI DEIXAR A SELECÇÃO NACIONAL?


A falta que Luís Filipe Scolari cometeu no fim do jogo Portugal-Sérvia foi uma falta muito grave. Tão grave que deveria ter dado origem a uma de duas atitudes: demissão a pedido do próprio, ou despedimento, por justa causa, a cargo da Federação Portuguesa de Futebol. Todos sabemos que nenhum destes caminhos foi seguido quer por um quer por outro. O empregado Luís Filipe, agarrado ao poder e às benesses que a função lhe atribuía, não pediu a demissão, renegou ainda a quente a agressão que todo o mundo viu, deu, umas horas depois, o dito por não dito, pediu desculpa pelo erro cometido e, sancionado pela UEFA com quatro jogos de suspensão, decidiu interpor recurso dessa punição, alegando estar a ser vítima de um castigo desproporcionado. O empregador Gilberto Madaíl, encolhido na concha de interesses que o comum dos mortais não conhece, ignorou praticamente o incidente e tentou mesmo branqueá-lo junto das altas esferas do futebol europeu. Sublime, não acham?

Confesso que nunca gostei deste Seleccionador Nacional e já o escrevi neste espaço, numa época em que aquele senhor ainda estava em estado de graça junto da generalidade dos portugueses. Desde sempre me irritou a forma como se relacionava com os portugueses e os clubes. Scolari foi, sem razão, especialmente agressivo com o Futebol Clube do Porto, arrogante com os jornalistas que dele discordavam e paternalista doentio com os portugueses que nele ingenuamente confiavam. Sempre me indignei com a forma como Scolari se dirigia aos portugueses, quando, do alto do seu pedestal, os tratava como se todos fossem uma cambada de analfabetos, integrantes de um País subdesenvolvido e menor. Há quem o ache um líder de primeiro plano. Para mim é um chefe sem classe, é um capataz de gente amorfa, é um sargento do tipo brutamontes. Mas também não gostei dele por razões de ordem técnica. Não foi capaz de aproveitar com sucesso os jogadores de craveira internacional que foram postos à sua disposição, não foi isento na escolha dos melhores profissionais de cada momento, tem sido inapto na formação de uma equipa renovada. Desaparecida a equipa base de José Mourinho tem-se visto “grego” para formar uma equipa ganhadora. Os resultados estão à vista: Portugal nunca ganhou nada e está a correr sérios riscos de não se apurar para o próximo Campeonato da Europa.

Luís Filipe Scolari não tem hoje condições para continuar no exercício das suas funções em Portugal. A falta que cometeu é muito grave, fragilizou-o para os próximos tempos. Um comandante debilitado torna fracos os seus comandados, é um derrotado à partida. Por isso, ou inteligentemente se afasta ou tem que ser afastado. Não falta, em Portugal, quem seja capaz de fazer melhor nesta fase crítica de apuramento da Selecção Nacional para o Europeu de 2008. Mourinho não disse, um dia destes, que, numa situação de emergência, se dispunha a sobraçar o cargo de Seleccionador Nacional? De que está à espera Senhor Presidente da Federação Portuguesa de Futebol? Que causas justificam a sua inadmissível hesitação, Senhor Dr. Gilberto Madaíl? Por favor, esclareça-nos...

terça-feira, agosto 28, 2007


OUTROS ASPECTOS DE UMA VIAGEM À RÚSSIA


Da recente visita que efectuei à Rússia ressaltaram-me outros aspectos mais correntes que, por falta de oportunidade, não mencionei no artigo que publiquei sob o título DE S. PETERSBURGO A MOSCOVO. Estive então mais atento ao que, de observação directa e in loco, conseguia ouvir, ver e saber acerca deste enorme País euro-asiático, sob o ponto de vista cultural, histórico, político e social. Foi, nesses domínios, uma viagem estimulante que admito voltar a fazer, designadamente a Moscovo.

Numa viagem destas, e num País tão cheio de expectativas, era impossível deixar de observar outros aspectos mais triviais, relacionados com a vida do dia a dia. São muitos mas apenas quero realçar dois: o turismo e as fortunas colossais que, em poucos anos, muitos russos conseguiram obter de forma escandalosa.

O turismo é ainda incipiente, atravessa um período de grande agitação, cresce atabalhoado e está, aos olhos de um europeu da classe média, muito longe de ser um turismo de qualidade. Tem-se a nítida sensação de que o importante para os operadores locais de turismo é ganhar muito dinheiro e rapidamente. O conforto do cliente que lhes paga é coisa que ainda não é para eles relevante. Vejamos:

Embora fazendo parte do pacote de serviços que foram pagos antecipadamente é muito frequente que, no aeroporto de chegada, não esteja nenhum guia local à espera do turista. Tive pessoalmente essa experiência, grupos houve que tiveram de esperar horas a fio pela vinda do guia previamente anunciado no voucher do seu programa de viagem; impressionou-me, neste contexto, a visível desorientação dum casal americano, de idade já muito avançada, abandonado à sua sorte e à inconsciência profissional dum guia que lhe prometeram estar ali à sua espera mas que não havia meio de chegar. Para cúmulo era raro encontrar, mesmo num espaço internacional, vivalma russa que falasse inglês.

O russo é, praticamente, a única língua que a generalidade das pessoas fala e utiliza, tornando-se muito difícil o diálogo com as populações sem a ajuda de guias profissionais. Os monumentos e a sua história apresentam-se, quase sempre, com legendas em russo, poucas há em inglês. Quem ousar deslocar-se sozinho ao Metro ou conduzir um automóvel na cidade ou no País terá, por essa razão, dificuldades acrescidas. É melhor não pensar nisso.

Disseram-me que a ligação de Moscovo a S. Petersbugo, feita de comboio à noite, é uma ligação lenta, desconfortável, de serviço fraco e com deficiências hoje inaceitáveis no domínio da higiene básica. Não constatei isso, felizmente, no Navio em que fiz a ligação fluvial entre as duas capitais. O serviço aqui já era razoável com o senão de as cabines serem ainda muito apertadas e desconfortáveis. Os navios, de idade avançada, deixam ainda muito a desejar. Em conforto e qualidade geral estão, curiosamente, muitos anos atrás dos cruzeiros do Nilo.

Após a desagregação da União Soviética e a subida ao poder do Presidente Boris Nikoláievitch Iéltsin tudo mudou, para melhor e para pior. Para melhor, desde logo pelo estabelecimento da democracia política num país cujo povo estava habituado a viver em ditadura e sofrer na pele, séculos e séculos, a ignomínia dos poderes sanguinários de Czares e Comunistas; para melhor, pela defesa, pelo menos teórica, dos direitos, liberdades e garantias do cidadão russo. Para pior, pela confusão generalizada que se instalou no País e nos Países que saíram da ex-União Soviética, com guerras violentas à mistura; para pior, pela degradação social das populações russas que, totalmente dependentes do Estado, não souberam, na generalidade, adaptar-se, de repente, a tempos diferentes e a uma nova mentalidade nascente; para pior pelo aumento do desemprego, pela privatização, a preços de saldo, de tudo o que era do Estado, especialmente das grandes empresas e meios de produção lucrativos; para pior pela desagregação da economia, pelo aumento do desemprego, pela falta de serviços, pelos altos preços praticados e pelo aparecimento de casos de pobreza extrema nas zonas mais afastadas dos grandes centros de decisão; para pior pelo aparecimento inopinado de fortunas colossais, conseguidas com a cumplicidade e falta de autoridade do Estado, pelo comportamento corrupto dos seus agentes que tudo facilitavam, também eles na voracidade dum enriquecimento rápido, ilícito e sem limites.

O que acabo de descrever resulta da observação directa do que vi, ouvi e interpretei. Depois de um comunismo atroz, a Rússia vive hoje num ambiente de capitalismo selvagem em que o dinheiro é o motor de tudo, e em que uma pequena parte da população está bem instalada na vida, e a outra, a grande maioria, se encontra numa situação de pobreza extrema, no limiar da indignidade humana. Até quando?

quinta-feira, agosto 16, 2007

DE S. PETERSBURGO A MOSCOVO


Se alguém tiver a intenção de um dia visitar a Rússia recomendo que o faça através de um cruzeiro fluvial que ligue S. Petersburgo a Moscovo. São mil e trezentos quilómetros de navegação que permitem, numa curta viagem de 10 dias, ter uma ideia geral do povo russo, da sua mentalidade, da sua história, da sua cultura, do seu nível de vida. Visitam-se pequenas, médias e grandes cidades, atravessam-se rios, lagos e canais, escalam-se eclusas e tem-se acesso a ilhas exóticas…

S. Petersburgo, Rio Neva, Lago Lagoda, Rio Svir, Mandrogy, Lago Onega, Ilhas de Valaam e de Kizhi, Canal de Kovzha, Lago Beloye, Goritzi, Rio Sheksna, Reservatório de Rybinsk, Yaroslavl, Rio Volga, Uglich, Canal de Moscovo e, finalmente, Moscovo, eis no que, em síntese, consiste este famoso cruzeiro, cujo título é, com rara felicidade, inspirado nas obras literárias de Radishhchev e Alexander Pushkin, respectivamente Journey from St Petersburg to Moscow e Journey from Moscow to St Petersburg, muito familiares também do próprio povo russo que, tendo condições económicas favoráveis, não deixa, ele próprio, de efectuar este deslumbrante cruzeiro.

Esta viagem permitiu-me saber que este extenso País é muito diferente nos níveis de desenvolvimento do seu povo. Moscovo imperial ou S. Petersburgo cosmopolita e cultural nada têm a ver com as outras cidades desta imensa Nação-Continente. Muito menos se assemelham às populações das vilas e aglomerados rurais em que a miséria económica e a degradação social se constituem na situação corrente de um povo que, sendo afável, manifesta ser simultaneamente sofredor, desiludido, resignado e sem esperança de uma vida melhor.

Há, por todos os lados, sinais claros do que foi a sua longa história, quase sempre sustentada por lutas de Poder Político e de uma nefasta influência do Poder Eclesiástico local. Estes dois poderes pouco quiseram saber de um povo que, escravizando na Terra, preparavam para um Céu que havia de vir. Poder religioso e poder político, lá como cá, sempre de braço dado, na preservação das suas próprias honrarias, mas sempre indiferente às condições de degradação económica do povo que governavam. O poder político dos Czares e a força religiosa dos Metropolitas, numa primeira fase milenar, e dos Comunistas, em todo o século vinte, foram as notas que mais marcaram uma Nação cujo povo se habituou a suportar sem capacidade de contestação. O povo russo é hoje, na sua raiz mais intrínseca, um povo manso, porque manso o fizeram os tiranetes da sua história. Depois de, na cidade de YAROSLAVL, me ter sido dito por um guia local que 50000 camponeses trabalhavam gratuitamente para 150 monges de uma riquíssima congregação religiosa, que forma mais concludente há para se descrever o que por lá se passou? Tudo em nome dos Czares na Terra e de Deus no Céu!!!

Esta forma de organização do povo russo deixou, pois, marcas históricas de grande importância, negativas e positivas. Como marcas negativas, o já aflorado poder tirano de czares e de dirigentes religiosos e, no último século, do poder político de comunistas sanguinários; Ivan (o Terrível), Pedro I (o Grande), Catarina II (a Grande) e, já nos tempos modernos, Estaline, são disso um arrepiante testemunho. Como sinais positivos ninguém pode esquecer, para além da literatura, ciência, música, teatro, vias fluviais e grandes obras de engenharia, o que pelo País abunda, de períodos mais longínquos, em matéria de igrejas, catedrais, monumentos, museus e palácios. As cúpulas douradas das catedrais de S. Petersburgo e Moscovo emprestam a estas cidades uma beleza única, dificilmente igualável no mundo. Neste contexto é obrigatório, em S. Petersburgo, visitar-se os palácios de Pedro o Grande (localizado em Peterhoff e residência de verão do czar, é tido como o Palácio de Versalhes russo) e de Catarina a Grande (em Pushkin), bem como o Museu Hermitage (uma espécie de Louvre de Paris e antigo Palácio de Inverno de Catarina II), considerado como o maior do mundo em termos de conteúdo e de números de obras expostas; como é obrigatório em Moscovo visitar-se o Kremlin, o Museu de Armeria, a Praça Vermelha, a Igreja de Cristo Redentor, a Catedral de S. Basílio e o Metro de Moscovo (que obra de arte este espantoso museu subterrâneo!!!).

Dizia-me um dos guias russos que durante o consulado soviético a religião deveria ser banida da sociedade russa. Não era mais necessária; a única “religião” oficialmente aceite deveria ser o próprio ideal comunista, a implantar em todos os territórios da então União Soviética mas a expandir igualmente por todo o mundo e por todos os povos, nem que fosse pela força das armas. Não nos fará este pensamento recordar algo de idêntico com as religiões que provieram de Cristo? O que foram as nove Cruzadas da Idade Média e o que é a Jihad islâmica dos tempos que correm?

Hoje por hoje não sou nada dado a grandes manifestações de natureza religiosa; mas na Praça Vermelha, lá que senti como que um deslumbramento de natureza mística que não consegui explicar, lá isso senti…Hei-de lá voltar.

segunda-feira, agosto 13, 2007


PERDER ASSIM, NÃO


O resultado do jogo da Super Taça Cândido de Oliveira que se disputou em Leiria no passado dia 11 de Agosto não é um resultado justo. Para a história fica sempre, é certo, a vitória do Sporting Clube de Portugal, mas o 1-0 final é lisonjeiro e não resulta, na minha opinião, de uma clara supremacia do vencedor. O SCP ganhou com um golo fortuitamente bonito, que só sai na rifa uma vez de tempos a tempos, mas pouco fez para justificar o primeiro troféu da época de 2007/2008. Paulo Bento, treinador medíocre, é notoriamente um treinador com sorte. Para sorte do Sporting. Até quando?

Mas houve erros incompreensíveis do Futebol Clube do Porto que contribuíram decisivamente para a sua derrota. Erros, em primeiro lugar, dos próprios jogadores que não foram capazes de transformar em golos as oportunidades que criaram; mas também erros graves de estratégia do treinador Jesualdo Ferreira. Um treinador competente define-se, independentemente das qualidades técnicas que revele ter, pela ousadia da estratégia que, qualquer que seja o adversário, escolhe para o confronto, e pela capacidade de tornar audazes os atletas que a vão interpretar no campo de jogo. Jesualdo Ferreira foi uma vez mais, num jogo decisivo, um treinador medroso. Escalou atletas para uma inaceitável postura de defesa e não ousou armar uma equipa para um ataque de vitória. Quando assim é, raramente se ganha, quase sempre se perde ou empata. É o que dizem as estatísticas; foi o que a estatística comprovou uma vez mais.

Mas neste processo há também uma figura pressaga. Bruno Paixão em campo nos jogos do FCP é garante seguro de vitória dos seus adversários. Foi quase sempre assim desde a lastimável arbitragem do já longínquo Campomaiorense-Futebol Clube do Porto, em que o resultado foi exactamente igual, depois de uma série de penalidades escandalosamente não marcadas também contra a equipa vencedora. No jogo do passado Sábado o inefável Bruno Paixão cometeu quatro erros graves, com incidência directa no resultado do jogo: dois cartões amarelos selectivamente mostrados, logo de início, a dois jogadores do FCP; uma flagrante grande penalidade não marcada contra o SCP numa altura em que o resultado era ainda de zero a zero; e uma inusitada paragem do jogo numa situação em que Adriano se encontrava em posição de poder fazer 1-0 a favor do FCP. Por tudo isto e pelas razões acima referidas a vitória do Sporting não foi uma vitória indiscutível; foi uma vitória que cheirou a falso.

Mas, por favor, Senhor Professor Jesualdo Ferreira: deixe, por uma vez, de ser medroso; quem tem medo não pode ser treinador do Futebol Clube do Porto.

quarta-feira, julho 18, 2007



UM PRESIDENTE DE 9% DE ELEITORES RECENSEADOS


É obra. Temos em Portugal um Presidente eleito com apenas 9% da população recenseada. Não conheço nos anais da democracia política portuguesa resultado igual. A vitória de António Costa, sendo formalmente irrecusável, é para ele um grande embaraço político. No lugar dele questionar-me-ia sobre se teria legitimidade real para governar a maior Câmara do País.

As eleições do passado Domingo dão muito que pensar. Desde logo por terem sido desnecessariamente precipitadas. Carmona Rodrigues tinha sido eleito para um mandato de quatro anos e não apenas para dois. Ser-se arguido num qualquer processo não é razão suficiente para se por em causa a legitimidade política de que Carmona era detentor.

Ser-se arguido hoje em Portugal é, além disso, um acto banal de que nenhum português está livre de se ver, de um momento para o outro, ignominiosamente constituído. Os casos multiplicam-se pelo País e o ex-presidente foi apenas uma das vítimas desta abominável fúria judicialista que persegue os portugueses. Por este caminho ninguém pode governar; basta que um qualquer magistrado do Ministério Público assim o queira.

É um paradoxo verificar, por outro lado, que o descalabro eleitoral de Lisboa tenha sido provocado pelo próprio partido de poder. Tratou-se dum acto suicidário absolutamente incompreensível. Como foi possível que o PSD desse, de mão beijada, o poder ao adversário? Erro crasso esse, como se viu.

Mas o descalabro de Lisboa não disse apenas respeito ao PSD e ao seu líder. Disse-o a todos os partidos do actual sistema político. Os lisboetas estiveram-se literalmente nas tintas para o acto eleitoral do passado dia 15 de Julho. Esmagadoramente quiseram dizer que já não acreditam nos políticos profissionais que temos, que os partidos, tal como estão, passaram de moda, que o actual modelo político português se encontra fatalmente ultrapassado e que é preciso encontrar outras formas de representação. As urnas do dia 15 de Julho disseram-no claramente.

quarta-feira, julho 11, 2007


OS MISTÉRIOS DE UMA SONDAGEM QUE SE CONTRADIZ


Há momentos em que entendo as sondagens políticas. Compreendi-as, por exemplo, quando o candidato a Primeiro-ministro nas eleições legislativas de 2005 era, segundo as sondagens de então, o candidato claramente vencedor. Além de o Governo de Santana Lopes se encontrar fatalmente desacreditado as promessas que o bacharel José Sócrates fazia aos portugueses favoreciam um desfecho vitorioso para o Partido Socialista e o seu Secretário-geral. Foi o que, sem surpresa, aconteceu. As sondagens confirmaram o que a realidade fazia prever.

Entendo-as também hoje no que toca à mais que provável vitória de António Costa nas eleições do próximo dia 15 de Julho para a Câmara de Lisboa. As sondagens já disseram quem vai ser o próximo Presidente da Câmara e eu acredito nelas. Inclusive penso que os outros candidatos também não têm dúvidas de quem será o vencedor. O ambiente social e político da cidade de Lisboa favorecem inapelavelmente o candidato socialista.

Mas, com franqueza, não percebo as sondagens que nos últimos tempos têm vindo a público em relação ao actual Governo. É que neste caso não diz a letra com a careta. O ambiente social que reina no seio da sociedade portuguesa é mau e globalmente hostil ao Governo e a José Sócrates mas, apesar disso, as sondagens espelham uma realidade diferente, no hipotético caso de novas eleições legislativas. Se as houvesse hoje José Sócrates e o Partido Socialista seriam, de novo, vencedores. Alguém entende isto? Por que razão, neste caso, as sondagens não reflectem a realidade que todos vêm e sentem?

O que se passa no nosso País em 2007 é o contrário absoluto do que Sócrates disse e prometeu antes de ser eleito em 2005. Sócrates, para ganhar, aldrabou irresponsavelmente os portugueses. Vejamos: Portugal deveria, nesta fase da actual legislatura, estar mais rico mas está hoje muito mais pobre, regredindo assustadoramente no ranking dos seus parceiros da União Europeia; a economia deveria estar mais fortalecida mas não há meio de crescer; a carga fiscal deveria ter sido substancialmente atenuada mas os impostos nunca apertaram tão impiedosamente o cinto dos portugueses como hoje; a saúde tem muito menos qualidade, é muito mais cara e o acesso aos cuidados é tremendamente mais difícil; a educação é um antro de confusões, perseguições, medos e conflitos; a justiça praticamente não funciona; a despesa pública é hoje mais elevada e, sem razão que se conheça, tem vido a subir na razão inversa dos apertos financeiros de que todos temos vindo a ser vexatoriamente explorados; se a taxa de desemprego era em 2005 de 7,5%, os seus índices são hoje de 8,2%, atingindo proporções nunca verificadas na sociedade portuguesa desde 1986.

Com um panorama tão negativo assim, e uma situação geral em todas as vertentes muito pior do que em 2005, como é possível, pergunto de novo, que as sondagens não expressem esta realidade e façam, ao contrário, do Partido Socialista e do licenciado José Sócrates os grandes vencedores dum putativo acto eleitoral, se realizado hoje?

Que mistérios abundam numa sondagem que, dando as indicações que dá, intrinsecamente se contradiz? Será por incapacidade das oposições? Será por causa da inexistência de alternativas políticas credíveis? Será por causa de um gigantesco programa de persuasão e propaganda que o chefe do Governo soube, com muito engenho, por em prática, iludindo e enganando, uma vez mais, os portugueses? Será por causa da comunicação social que temos, amorfa, vigiada, subserviente, medrosa?

Quem sabe responder a isto? Será o Governo mesmo competente e estarei eu, como outros, errado na apreciação que lhe faço? As sondagens feitas ao Governo é que estão certas? Neste caso específico, tergiverso.

quinta-feira, junho 21, 2007

A OTA DE UM OTÁRIO ÚTIL


É ponto assente. O novo Aeroporto Internacional de Lisboa vai ser construído na Ota. Alguém tem dúvidas sobre isso? Por mim não tenho.

O que significa então o estudo complementar que vai ser desenvolvido acerca da alternativa Alcochete? Perda de tempo e de dinheiro. Perda de tempo porque a decisão já foi, há muito, tomada pelo Governo e não vai, por isso, servir rigorosamente para nada; perda de dinheiro porque vamos todos ter que o pagar, sem que daí advenha retorno para o País, ou benefício visível para os cidadãos. Que utilidade tem, de facto, o dinheiro que um Governo irresponsável vai fazer-nos gastar com o estudo da alternativa ao Aeroporto da Ota? Nenhum; é uma despesa escandalosamente inútil.

O estudo que aí vem é, além de uma aldrabice sonsa, um mero esbanjamento de dinheiros públicos. É mais um assalto à bolsa dos portugueses perpetrado por um Governo que, gozando sem vergonha com todos nós, não há meio de cair. Vai um dia cair de maduro, mas, incompreensivelmente, não há meio de cair de vez.

O estudo da alternativa Alcochete tem, contudo, motivações políticas muito claras. É necessário ao Governo, é imprescindível a José Sócrates e é fundamental para a presente candidatura de António Costa. Durante seis meses o Governo deixa, no seu todo, de ter um problema que o flagelava todos os dias; durante seis meses o Primeiro-ministro pode, com mais tranquilidade, pensar melhor na presidência da União Europeia; durante os 30 dias decisivos da campanha eleitoral para a Câmara de Lisboa o socialista António Costa, com notório alívio, deixa de ter de responder à questão chata de, putativo presidente, ter que, em benefício do Aeroporto da Ota, justificar o abandono do aeroporto internacional da própria cidade de que quer ser Presidente.

E assim vai o nosso País. Indignado mas submisso; revoltado mas medroso; amargurado mas servil. Que raio estamos todos nós, cidadãos amoucos, a fazer? Não há ninguém que, com a fibra de outros que na história foram “valorosos”, dê um safanão reabilitante a todo este estado de astenia colectiva? Como vamos sair disto?

segunda-feira, junho 18, 2007

JORGE NUNO PINTO DA COSTA


Se há em Portugal algum dirigente desportivo cuja competência possa ser medida pelos êxitos que conseguiu, esse dirigente chama-se Jorge Nuno Pinto da Costa. Em mais de duas décadas como Presidente do Futebol Clube do Porto já ganhou tudo o que poderia ser ganho. Em Portugal, na Europa e no Mundo. Os troféus nacionais e internacionais atestam-no com inatacável evidência. Jorge Nuno é, por muito que isso custe aos seus detractores, um vencedor nato, um emblema eterno do FCP, uma referência obrigatória do desporto português. Ele é hoje um dos raros portugueses que, estando já para além do seu próprio País, surpreende o mundo com os êxitos que obteve, enaltece Portugal com a obra que construiu e orgulha os portugueses saudosos do seu País distante, qualquer que seja o recanto da diáspora em que se encontrem. Jorge Nuno Pinto da Costa e o seu Futebol Clube do Porto são, irmanados, uma marca incontornável do nosso País, na Europa e no Mundo. Não será exagero dizer-se que, no dirigismo desportivo, Jorge Nuno é, nos tempos de hoje, uma outra expressão do Eusébio dos anos sessenta, do Figo dos anos noventa e do Cristiano Ronaldo dos últimos tempos dos anos 2000.

Tive o privilégio de ler o que foi editado pelo jornal Público de hoje. Concordei com o que foi dito. Pinto da Costa é feliz sempre que fala do seu Futebol Clube do Porto, mas entristece-se naturalmente quando os assuntos são de outra natureza. Com a serenidade que sempre soube patentear na vida, mesmo em circunstâncias adversas, pressinto-o inundado pela amargura de algumas injustiças de que, aleivosamente, está a ser vítima, vejo-o incomodado pela traição de pessoas que amou, noto-o revoltado pelas tramas jurídicas do Apito Dourado, observo-o desiludido com as artimanhas com que gente despeitada o quer, à viva força, condenar.

Em Portugal não se pode ser um vencedor, não se pode, sobretudo, vencer muitas vezes. No desporto como nas outras actividades. Jorge Nuno Pinto da Costa e o Futebol Clube do Porto têm vencido quase sempre nas últimas décadas, cá dentro e lá fora, sem favores de ninguém. De forma limpa, com a luta abnegada dos seus atletas e sempre no terreno de jogo. Se antes de 1974 havia, em Lisboa, os chamados vencedores do odioso regime de então, o Futebol Clube do Porto e Jorge Nuno Pinto da Costa passaram a sê-lo, sem favores, do regime democrático que, entretanto, nasceu.

Toda a gente de boa fé verifica que Jorge Nuno Pinto da Costa e o Futebol Clube do Porto estão a ser alvo de perseguições intoleráveis. Como raramente são derrotados no campo de jogo têm que ser derrotados, a qualquer preço, na secretaria e nos tribunais. Por maiores que sejam as campanhas insultuosas, por mais ilustres que sejam os próceres das artimanhas judiciárias que artificialmente se criaram com o exclusivo fim de se obter a sua condenação, Jorge Nuno e o FCP vão vencer uma vez mais. Os justos vencedores da vida nunca perdem com burocratas invejosos e sabem também vencer com justiça nos Tribunais. É o caso presente.

domingo, junho 17, 2007

A SENHORA DO DEDO EM RISTE

Por muito que custe à Senhora Ministra da Educação, Margarida Moreira não pode continuar no exercício das funções de Directora Regional da Educação do Norte. Se nunca deveria ter sido nomeada no passado para aquelas funções, foi um erro crasso tê-la reconduzido recentemente no contexto do processo de reestruturação desta estrutura regional de educação. A DREN merece que a dirija outra pessoa, uma outra pessoa que, sem ser de dedo em riste, seja capaz liderar bem e de saber ouvir diferente. À frente deste Organismo Regional de Educação não pode estar um tiranete pífio, uma sarigueia qualquer. A dignidade da função requer um dirigente de alto nível, um dirigente com nobreza de carácter.

Aquela senhora não tem claramente perfil para o lugar. Ocupa-o, não por mérito próprio, mas por ser militante do Partido Socialista, por ter sabido aproximar-se de quem fosse capaz de lhe dar guarida partidária (diz-se, por aí, ser um tal ministro que ficou célebre pela famosa tirada do “jornalismo de sarjeta”…) e por ser o exemplo perfeito de como devem actuar, no terreno, os mangas de alpaca do todo poderoso Chefe José. Margarida Moreira não tem dimensão humana para o desempenho das funções que exerce, rareia-lhe cultura cívica, escapa-lhe o sentido democrático das coisas, escasseia-lhe visão estratégica, abunda-lhe o autoritarismo mesquinho, falta-lhe notoriamente, como se disse, nobreza de carácter.

Margarida Moreira é hoje, pelas piores razões, um celebridade nacional. É um pequeno tiranete que amedronta quem dela discorda, é um epifenómeno que, infelizmente, reproduz o que se vai passando pelo País fora. As pessoas em Portugal hoje têm medo; têm medo de discordar do poder político; têm medo de emitir publicamente opinião diferente; têm medo de desagradar aos chefes; receiam o poder político. Há um temor generalizado de represálias. Neste clima de medo, nunca visto desde que instalou o regime democrático, Fernando Charrua é apenas um exemplo. Até quando Senhor Primeiro-ministro?

terça-feira, maio 08, 2007


UM PAÍS MENOR. UM PAÍS SEM HOMENS DE VISÃO


Portugal tem sido, ao longo da sua história, um País de pensamento negativo. É da sua condição não saber afirmar-se com segurança no concerto das nações. Excepção feita ao período das Descobertas e a fogachos momentâneos de ocasião o nosso País sempre foi um país globalmente menor. Menor nos recursos naturais, menor na capacidade criativa do seu povo, menor na incapacidade endémica de se organizar, menor nas elites políticas que o governaram ao longo dos séculos.

Ainda hoje é assim e, presumo, será sempre assim para as próximas gerações. Está na massa genética dos portugueses fazer do seu País um País irrelevante, inculto, preguiçoso, boçal, submisso, pedinte, invejoso, economicamente dependente, traiçoeiro, ganancioso. São assim os portugueses, exactamente como é o País que fundaram. São assim os políticos que governaram e governam Portugal; são fracos porque fraca é a sua gente. Não têm culpa de serem como são; coerentemente não degeneram.

Apesar de tudo Portugal é um País de nove séculos, tem fronteiras consolidadas, criou, manteve e expandiu a sua própria língua, detém uma cultura própria. Apesar de tudo sobreviveu politicamente e soube deixar a sua marca no mundo por onde passou. Soube ser perene na Europa, na África, na América, na Ásia, na Oceania!!!

Como sair desta contradição aparentemente insanável? Como é possível deixarmos de ser o que hoje somos e passarmos a ser o que por vezes fomos? Não sei, duvido que alguém saiba. Tenho a convicção de que já não vamos lá com as gerações sobrevivas. Não vislumbro elites salvadoras. Onde as há?

terça-feira, abril 17, 2007


JOSÉ SÓCRATES DEVE, OBVIAMENTE, DEMITIR-SE


Já não consigo olhar de frente para José Sócrates. Sempre que o vejo na televisão assaltam-me dúvidas imensas acerca da autenticidade dum homem que um dia conseguiu ser Primeiro-ministro de Portugal. Ao vê-lo hoje em Marrocos fiquei, tenho que ser franco, arrepiado. Não consegui desligá-lo das mentiras públicas em que se envolveu antes de ser Primeiro-ministro e depois de o ser.

Utilizou truques para se promover socialmente através da sua carreira académica e prometeu, irresponsavelmente, aos portugueses aquilo que não podia ter prometido para ganhar eleições. Há no seu comportamento uma trapalhada de aldrabices que o não recomendam para o cargo de Primeiro-ministro do meu País. A forma, combinada, como conseguiu obter a classificação de 15 valores na cadeira de Inglês Técnico foi de bradar aos céus. Este homem, por se ter socorrido de repetidas falcatruas, deixou de ser credível. Digo isto com profunda frustração. Sinto-me envergonhado.

José Sócrates deve demitir-se, ou ser demitido. Por muito menos do que aquilo que ele fez houve Presidentes e grandes estadistas que tiveram de resignar. Há, como se vê pela sua história pessoal e política, mais do que um WATERGATE na conduta daquele senhor. Este homem não tem condições políticas para governar o meu País e para representá-lo, com dignidade, no contexto das relações internacionais. Sócrates não tem condições para presidir ao Conselho Europeu no segundo semestre de 2007.

O Partido Socialista e o Senhor Presidente da República têm que assumir as suas responsabilidades. A legislatura deve ser continuada até ao fim pela actual maioria parlamentar. Mas com outro Primeiro-ministro. Acabe-se com este calvário. O País exige-o.

quinta-feira, abril 12, 2007



SALPICOS DE UMA ENTREVISTA MAL ENGENDRADA


A entrevista que o licenciado José Sócrates concedeu, ontem noite, à RTP, não me convenceu. Pecou, desde logo, por ter sido feita na televisão pública, exactamente na estação que o próprio Primeiro-ministro tutela, e por jornalistas que, por via disso, se encontravam subconscientemente condicionados. Uma entrevista desta natureza só deveria ter sido feita numa das estações privadas e pelos próprios jornalistas que estiveram na génese dos factos que lhe deram origem. Como tudo teria sido diferente se esta entrevista tivesse sido feita pelos jornalistas do Público, Expresso e Rádio Renascença, ainda que na televisão pública!!!

O exercício do contraditório teria sido, de resto, a melhor forma de o Primeiro-ministro se defender das acusações de que fora alvo. José Alberto Carvalho e Maria Flor Pedroso, porque não conheciam a fundo o problema, nunca conseguiram encontrar o rumo certo, revelaram desfasamento e preparação insuficiente, mais parecendo ter necessidade de fazerem o frete ao Governante em dificuldades do que contribuírem para o cabal esclarecimento dos portugueses. Foi pena.

Ressaltam da entrevista algumas ideias-chave, que urgiria clarificar melhor. Ei-las, dentre outras: José Sócrates permitiu-se utilizar indevidamente, anos a fio, o título de Engenheiro sem que para isso estivesse devidamente habilitado; não ficou claro como foram obtidas as equivalências e se as mesmas foram objecto de rigoroso escrutínio pelo Conselho Científico da Universidade; não se compreende por que houve apenas um professor para quatro disciplinas, e o próprio reitor para a cadeira de Inglês Técnico, à revelia do professor desta cadeira; é esquisito que o aluno José Sócrates tenha obtido o direito às equivalências sem apresentação prévia, junto dos serviços competentes, do certificado das cadeiras que terá feito nos Estabelecimentos de Ensino onde foram ministradas; não se sabe como foram dadas as aulas práticas das cinco disciplinas que este aluno diz ter feito na Universidade Independente; ignora-se o que têm a dizer acerca desta embrulhada os colegas do aluno José Sócrates bem como os professores, Conselho Científico e pessoal da secretaria da Universidade; seria interessante conhecer a opinião da Ordem dos Engenheiros acerca do nível técnico-científico desta licenciatura.

José António Verdade é um profissional de contabilidade muito competente, reconhecido no meio e com uma excelente carteira de clientes. Com a sua vida profissional perfeitamente estabilizada, José António acalenta hoje o sonho de ingressar na Faculdade de Economia de uma das Universidades Portuguesas, para aí tirar a licenciatura em Economia. Depois de conhecer a história universitária do Primeiro-ministro José Sócrates ficou tranquilo. Espera, sem apresentação prévia do certificado do curso que possui por um Instituto Superior de Contabilidade, que a Faculdade de Economia lhe aceite as indicações verbais que vai proporcionar, lhe faça um plano de equivalências e lhe indique as cadeiras que terá de frequentar para concluir a sua tão desejada Licenciatura em Economia. Será que vai ter sucesso?

terça-feira, abril 10, 2007


O MORALISTA-MOR DO REINO


Incomoda-me ouvir, quase todos os dias, o Senhor Luís Filipe Vieira. Fala muito, em toda a parte, de tudo e de todos, contra tudo e contra todos. Quem o ouve e não conheça o seu passado recente fica com a ideia de que se trata dum homem íntegro, acima de qualquer suspeita, tantas são as conversas que faz em torno das virtudes públicas de que se diz ser praticamente o único portador. Tudo em nome do seu Benfica, do clube que ele, para risota de toda a gente, diz ser o maior clube do mundo.

Fora do desporto ignoro o que seja o seu passado de cidadão e de empresário. Pelo dinheiro que parece ter, pelos sinais exteriores de riqueza de que dá mostras é, certamente, um dos homens ricos da sociedade portuguesa. Não tenho elementos nem me sinto com competência para ajuizar sobre se a riqueza que detém é obra de um trabalho sério. Admito que sim.

Não posso dizer o mesmo no que toca ao seu comportamento como Presidente do Sport Lisboa e Benfica. A postura deste Senhor tem sido inqualificável; o seu comportamento público grassa, por norma, a boçalidade, não é sério e é indigno da instituição desportiva que representa. Julgando-se ser dono absoluto da verdade insinua que o Benfica só não ganhou mais vezes nos últimos anos porque os árbitros não deixaram; que o Benfica tem sido sempre prejudicado e que os clubes rivais sistematicamente favorecidos, especialmente o Futebol Clube do Porto. Nunca fala das vezes em que o seu clube é despudoramente protegido, esquece sempre as vezes em que os clubes rivais são descaradamente prejudicados. O seu comportamento, próprio de um songamonga, não prestigia o clube que nele depositou confiança.

Na história do futebol português são três os clubes de referência nacional: Sport Lisboa e Benfica, Sporting Clube de Portugal e Futebol Clube do Porto. Cada um teve o seu período de hegemonia. Ninguém esquece os anos de ouro dos cinco violinos do Sporting, ninguém contesta o poderio encarnando dos anos de Eusébio, ninguém deve por em dúvida a força do Futebol Clube do Porto das últimas três décadas. Ninguém, excepto o inefável Luís Filipe Vieira. Esse, detentor de todas as virtudes e moralista-mor do fenómeno desportivo do nosso País, acha que o Futebol Clube do Porto raramente ganhou com mérito no campo de jogo, entende que a sua força desportiva apenas se tem devido à decisiva influência que tem sabido exercer sobre os árbitros de futebol. Ao falar assim omite deliberadamente os êxitos internacionais deste clube; ao fazer aquelas insinuações ignora que, no mesmo período de três décadas, o FCP foi por duas vezes campeão europeu, uma vez finalista vencedor da Taça UEFA, uma vez finalista vencido desta última Taça, duas vezes Campeão da Taça Intercontinental, uma vez vencedor da Super-Taça Europeia e uma outra vez finalista vencido desta mesma última Taça. Tal como o Benfica o foi no passado longínquo dos anos sessenta, o Futebol Clube do Porto é, de há trinta anos a esta parte, o principal baluarte do desporto nacional, bem como a grande referência mundial do futebol português. Por muito que isso custe àquele indizível senhor.

sexta-feira, abril 06, 2007

O LICENCIADO JOSÉ SÓCRATES


A posse de um grau universitário não é condição indispensável para se ser Primeiro Ministro dum País. Há exemplos de sobra, por esse mundo fora, de grandes figuras políticas que marcaram positivamente a história do povo que dirigiram, sem que isso tivesse a ver com a posse de um qualquer título de natureza universitária. Não me impressiona, por isso, que o Primeiro-ministro de Portugal não tenha um curso superior, seja um simples engenheiro técnico de engenharia civil ou um engenheiro civil no sentido rigoroso da palavra, ou, ainda, que tenha obtido, em fase avançada da sua vida, a simples licenciatura em Engenharia Civil. Isso é-me absolutamente indiferente. Coisa distinta é saber se, neste processo, há mentiras ou se há aspectos menos claros de permeio.

Há, na caso das habilitações de José Sócrates, algumas coisas que não soam, de facto, bem. É já muita a poeira que paira sobre o assunto; são muitas as dúvidas acerca das habilitações universitárias desta alta figura do Estado, e da forma como obteve algumas delas. Não deixa de ser esquisito o processo recente de obtenção da licenciatura em Engenharia Civil através da Universidade Independente. Pelo que tem vindo a público nem tudo parece bater certo.

Diga-me, por isso, senhor Primeiro Ministro, e de uma vez por todas: é apenas Engenheiro Técnico de Engenharia Civil, ou é também Engenheiro Civil? Se é Engenheiro Civil por que razão não está ainda inscrito na Ordem dos Engenheiros? Se é só Bacharel por que se permitiu, ao longo da sua carreira política, que o tratassem sempre por Senhor Engenheiro?

Por que sentiu a necessidade serôdia de obter a licenciatura em Engenharia Civil? Por que escolheu, para o efeito, a Universidade Independente? Por aí ser mais fácil obter o grau académico que pretendia? É capaz de nos mostrar o plano de estudos da licenciatura que afirma ter obtido naquela Universidade, o grau de assiduidade, a relação dos professores, as notas de cada disciplina e a nota final do curso de que diz ser licenciado? Qual foi a última disciplina do curso, em que data fez o respectivo exame, com que nota e com que professor? Sendo agora, como afirma, licenciado em Engenharia Civil quando é que tenciona inscrever-se na Ordem dos Engenheiros? Ou ainda não tem condições para isso?

Como cidadão tenho o direito que me dissipe as dúvidas que lhe pus; como Primeiro Ministro o senhor só tem vantagens em que tudo fique definitivamente clarificado. Está em causa a honra do cidadão José Sócrates; está em causa a seriedade política do Primeiro-ministro de Portugal.

quinta-feira, março 15, 2007



A DRA. MARIA FLOR E O ENGENHEIRO JOSÉ SÓCRATES

A Dra. Maria Flor é uma senhora que hoje se encontra particularmente infeliz. Motivos? Muitos, mas designadamente uma carta que acabava de receber da Caixa Geral de Aposentações, do seguinte teor: “Nos termos do Decreto-Lei nº 53-D/2006, de 29 de/12, a pensão de V. Excelência ficou sujeita ao desconto mensal de 1% para o respectivo subsistema de saúde (ADSE) com efeitos desde 2007-01-01, sendo tal percentagem actualizada, em 1 de Janeiro de cada ano subsequente, em 0,1% até atingir 1,5%. Informa-se de que a regularização do desconto de 1% relativo às pensões de Janeiro e Fevereiro do corrente ano será efectuada, respectivamente, nos abonos a processar por esta Caixa nos meses de Julho e Novembro próximos”.

Maria Flor pertence à classe média, está aposentada desde 2003 e a sua pensão não foi objecto de qualquer valorização até Dezembro de 2006. Isto significa que o seu rendimento mensal tem vindo a degradar-se de ano para ano na proporção inversa do aumento do custo de vida dos portugueses. Maria Flor está hoje mais pobre do que estava em 2003, quando lhe foi legalmente reconhecido o direito à sua pensão; sente-se, por isso, infeliz, indignada, enganada e revoltada com este Governo e com o Primeiro-Ministro. Fez os descontos que o Estado lhe exigiu ao longo de toda uma carreira contributiva, teve direito a uma pensão calculada na base dos anos e vencimentos de que usufruía, foram-lhe dadas garantias de que a sua pensão acompanharia os aumentos dos funcionários públicos, mas o resultado que ocorreu foi exactamente o contrário de tudo aquilo que ingenuamente esperava. Não só não beneficiou de qualquer aumento como, a partir de 2007, a sua pensão passou a ser nominal e realmente menor. Em Janeiro de 2007 passou a ganhar menos € 78,04 por mês do que ganhava em 2006. Se a isso se juntar o valor da inflação, Maria Flor receberá, na prática, todos os meses menos € 122,00 do que recebeu em cada mês do ano que findou.

Segundo ela, o Estado não é, de facto, uma pessoa de bem. Não honrou os compromissos que assumiu, rasgou os contratos de vida que estabeleceu com muitos portugueses como ela e prontifica-se, na sua sanha devoradora, a apoderar-se de tudo o que puder e sempre que puder. Isto é um roubo e o Primeiro-Ministro um incorrigível trapaceiro, diz ela. Tendo há dois anos votado nele, Maria Flor sente-se inconsolavelmente traída.

Penso que a Dra. Maria Flor tem razão e compreendo a sua revolta. Este Governo não presta e o Primeiro-Ministro é um aleivoso aldrabão. Fez e faz exactamente o contrário de tudo aquilo que prometeu para ganhar as eleições. Foi e é, por isso, intelectualmente desonesto. Um Primeiro-Ministro assim não merece continuar a governar.

sexta-feira, março 09, 2007



A RTP E O ELOGIO EM CAUSA PRÓPRIA


Entre o programa das sete maravilhas do mundo da TVI ou o espectáculo de indecoroso auto-elogio da RTP, optei claramente por assistir ao programa do canal 4 da televisão portuguesa. Além de ser um espectáculo bem concebido, as sete maravilhas do mundo que a TVI, em boa hora, trouxe a antena no aniversário dos 50 anos da RTP, contribuíram, de uma forma agradável, para o enriquecimento cultural dos seus espectadores. Sem custos para o contribuinte, sem indemnizações compensatórias oriundas do Orçamento do Estado, vivendo autonomamente do share e dos anunciantes que financeiramente a sustentam, a TVI demonstrou que é possível conceber-se excelentes espectáculos de televisão, de inegável interesse público, sem as contrapartidas financeiras a que habitualmente se reclama o canal do Estado.

A história da RTP não é, com efeito, uma história brilhante. Sistematicamente ligada aos regimes e poderes políticos de ocasião, a RTP não tem sido um modelo de liberdade de expressão, não tem sabido ser isenta e não é um exemplo de independência do poder político. Serviu-o sempre de acordo com as circunstâncias, na ditadura, no PREC e na democracia. A televisão pública tanto foi, contraditoriamente, capaz de servir Salazar e Caetano, como, desaparecidos aqueles, foi lesta a apoiar Vasco Gonçalves ou, depois deste, o Ministro de um qualquer Governo democrático. Em matéria de informação as oposições sempre foram e são ignoradas. Ora, fazer dessa história um espectáculo de auto-elogio ao longo de um dia inteiro e por períodos que se têm vindo a prolongar para além do que é razoável, é o cúmulo da desfaçatez. É irritante e todos estamos fartos.

Pesada na estrutura, cara para os cofres do Estado, sorvedouro sistemático do dinheiro dos contribuintes, a RTP há muito que deixou de ter interesse para os portugueses. É um fardo que hoje se dispensa perfeitamente. A SIC e a TVI fazem melhor do que a RTP, não custam dinheiro aos contribuintes, também vão às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, já estão gratuitamente a fazer serviço público de televisão, não dependem do poder político dominante, dão oportunidade equitativa de afirmação às oposições e aos governos, são financeiramente autónomos e não precisaram, para equilíbrio das suas contas, dos 224 milhões de euros que, imagine-se, foram oferecidos pelo Estado à RTP no ano que findou.

Dentre os muitos serviços públicos que devem acabar para equilíbrio das contas do Estado, a RTP é, inegavelmente, um deles. Os portugueses agradecem. Terá o Senhor Primeiro-ministro coragem de a extinguir?